precisamos de uma aldeia

16-04-2026

por vezes questiono-me de onde surgirá o sucesso de tantas páginas nas redes sociais sobre parentalidade e educação. pergunto-me o porquê de termos como best-sellers tantos livros focados na infância, na disciplina, nas dicas e regras para a felicidade na parentalidade... o que andamos verdadeiramente à procura, afinal?

recordo um artigo que escrevi há uns tempos onde falo que somos pais com os pais que tivemos e com os filhos que fomos:

à semelhança de uma criança, também nós vamos apalpando terreno no mundo da parentalidade imitando aquilo que vivemos, como se de um barómetro se tratasse. quantas vezes não damos por nós a pensar "a minha mãe dizia-me o mesmo"? ou, pior, quantas vezes não nos dizem "estás a ficar igual ao teu pai"? (...) tudo isto é normal, os nossos pais são as nossas primeiras referências sobre o que fazer e o que não fazer.

contudo, agora penso se não haverá um movimento (social, até!) que tenta ir contra estas referências internas. talvez os pais de hoje tenham (e bem!) refletido tanto sobre a sua própria experiência enquanto filhos - o que tornou possível questionar o que viveram e, com isto, as escolhas dos seus pais - que, além disso ter permitido um crescimento interno, poderá ter criado uma grande cisão com o seu próprio passado e com estas referências.

recordo a série infantil Bluey e os adultos que adoram assistir. será que, estando em tamanho esforço para fazer diferente do que vivemos e tivemos, não acabamos a recorrer a estes desenhos animados - que parecem feitos para acalmar os nossos corações - como guias da parentalidade? será que idealizamos o pai da Bluey como "o pai perfeito", também pela ausência de candidatos suficientemente bons na nossa realidade para ocupar esse lugar? 

será que, questionámos tanto a parentalidade que experienciámos, que acabámos a rejeitar totalmente a parentalidade dos nosso próprios pais? contaminados de tal forma com a vivência das suas falhas para connosco, não conseguiremos reconhecer todo o seu esforço e tudo o que fizeram de certo? mais, será que todas as suas falhas apagam todos os seus acertos? será que tendo falhado, como também nós o iremos fazer, não terão nada a acrescentar agora? será que não serão qualificados, mesmo sendo seres faltantes (expressão maravilhosa da Ana Suy), para fazerem parte da nossa aldeia? terá a nossa aldeia de ser constituída somente de certezas, validação e qualificações?

quando, nos dias de hoje, não conseguimos reconhecer esta ambivalência e rejeitamos de forma tão radical as nossas principais referências internas, o que nos sobra? quero dizer: será que desidealizámos de tal forma os nossos pais, que procuramos hoje nas redes sociais, nos milhentos técnicos, nas séries e nos livros novas idealizações? será que, perante esta radical rejeição, não descredibilizámos os nossos antepassados ao ponto de ficarmos sem uma aldeia (mais ou menos orgânica) a quem pedir orientação e, por isso, procuramo-la nestes outros lugares (carregados de validação, de orientação e de "cientificação")?

como poderão as famílias não se sentir sozinhas quando parece que se despovoaram internamente, preenchendo com artifícios caricaturados os vazios que ficaram? como não haverão de sentir-se perdidas? como não haveremos de ter a geração de pais mais perdidos, mesmo sendo os mais informados? é preciso uma aldeia para criar uma criança, mas onde está ela?


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marcia arnaud | psicóloga clínica | 2025 | Todos os direitos reservados
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