quando é o bebé que é surpreendido...

19-05-2026

no fim de semana passado, estive nas Jornadas do Espaço Potencial onde a Helena Mourão nos deixou com uma frase que ecoou dentro de mim e que me levou a pensar a minha prática clínica e os vários bebés, crianças e adultos com quem me cruzo:

é suposto ser o bebé a surpreender
o ambiente e não o oposto.
por Winnicott

há qualquer coisa de poético, e milagroso até, num ambiente que espera. num ambiente que não invade, que não acelera e que não exige do bebé uma adaptação demasiado precoce ao outro. não me refiro às inevitabilidades da vida do adulto que acabam, mesmo sem querermos, por exigir do bebé, mas sim os pequenos detalhes do dia-a-dia, os pequenos segundos que compõem as horas do dia e que não precisam de ser comandados por ninguém além do próprio bebé...

refiro-me ao gesto espontâneo do bebé, como uma das primeiras formas de se ser Humano... uma mão que procura alcançar algo. um sorriso que ilumina de dentro para fora. um choro que comunica uma estranheza. um olhar que mostra um interesse. é suposto que o mundo se deixe surpreender por tudo isto e que siga estes movimentos do bebé. é suposto que nós, adultos, nos deixemos maravilhar pelos interesses e os desejos que o bebé nos vai mostrando, enquanto lhe apresentamos o mundo em que passou a viver. seria suposto, então, do outro lado estar alguém que permita que o seu gesto aconteça sem o atravessar com as próprias urgências. seria suposto não ser o bebé a surpreender-se com as angústias do outro, obrigando-o a reagir ao que se encontra à sua frente e a adaptar-se. 

quanto maior a imposição da angústia do outro, mais o desejo se vai apagando, como se de uma vela se tratasse, a ser abafada pela respiração do outro. quanto maior a necessidade de se adaptar, mais o bebé vai aprender a ler o clima emocional à sua volta, como quem aprende a ler a meteorologia afetiva para evitar imprevistos e catástrofes. tornam-se assim crianças (e futuros adultos) quietas, adaptadas e maduras. 

talvez, no caminho do crescimento, o direito ao espato se perca quando estão demasiado ocupados a proteger-se do espanto do outro. crescer não é aprendermos a adaptarmo-nos infinitamente, mas conseguir adaptarmo-nos deixando espaço para a possibilidade do nosso gesto espontâneo. crescer é aprender que o desejo não precisa de desaparecer para que o amor permaneça. 

numa sociedade invadida por angústias por todos os lados e com uma "parentalidade preventiva", tão orientada para a antecipação do erro e da falha, onde fica o bebé? onde ficam os seus desejos, afinal? onde ficam os seus interesses, mesmo quando a angústia dos pais parece ser em prol do melhor interesse do bebé? onde fica tudo o que não é necessidade, mas é vida?  


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marcia arnaud | psicóloga clínica | 2025 | Todos os direitos reservados
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