este talvez seja dos livros mais maravilhosos e perturbadores que li nos últimos tempos, tanto que nos esquecemos que estamos a ler uma autobiografia e não ficção. não teria tempo ou espaço suficientes para chamar a atenção para todos os gatilhos e todos os temas que podem ser despertados dentro de cada um de vós, mas deixo um conselho: procurem alguém para discutir depois de lerem - quanto a mim, o clube de leitura do cruamente foi, sem dúvida, um espaço importante para pensar o que ia lendo.
nestas 400 páginas lemos sobre a história da vida da Jennette, mais concretamente, a sua relação com a mãe que não é uma relação qualquer: é uma relação muito pouco saudável e isso é nos transmitido desde a primeira página - o que se torna impactante logo desde o inicio. não podemos esquecer que esta história só é possivel de ser lida por nós, e escrita pela autora, pelo trabalho terapêutico que foi feito, e isso é visível nas inúmeras vezes em que, apesar de estarmos a ler a pequena Jennette, percebemos que aquelas palavras são de uma Jennette adulta que já pensou muito sobre tudo o que viveu e sentiu.
a relação entre as duas pode ser descrita como uma relação fusional. a Jennette tem de, desde que nasceu, ser o prolongamento da mãe. todos e cada um dos seus gestos espontâneos são substituídos pelos desejos e gestos da mãe. esta fusão precoce que existia entre elas obstruiu qualquer movimento de autonomia, inerente ao crescimento. mais, obrigou ainda a que a Jennette tenha desenvolvido uma grande sensibilidade aos estados de humor da sua mãe para que consiga, a todo o instante, adivinha-la e corresponder-lhe.
"Tentei dizer-lhe recentemente que, agora que tenho oito anos, acho que posso tratar disso [limpar o rabo], mas ela olhou para mim como se fosse desatar a chorar."
"Conheço bem esta expressão, tal como conheço bem todas as expressões da Mãe. Aprendia-as de trás para a frente, para poder comportar-me em concordância (...) Passei a vida a estudá-la, para que possa saber sempre, porque quero sempre fazer o que estiver ao meu alcance, em todas as ocasiões, para manter ou fazer a Mãe feliz."
uma outra consequência desta relação fusional foi o desenvolvimento de perturbações alimentares, e não nos esquecendo de que todos os sintomas são uma forma de comunicação, podemo-nos perguntar: o que comunicam estes? existe um desejo muito intenso e claro da mãe de que a Jennette permaneça eternamente uma criança - poderia colocar muitas hipóteses quando a esta necessidade, não o farei. uma das formas de combater este crescimento, conservando o seu corpo e o aspeto infantil, foi controlando o que come. a anorexia parece ter surgido como uma ferramenta para controlar a angústia do crescimento e da separação, para recuperar algum sentimento de controlo sobre a vida que nunca foi sua. já a bulimia, talvez tenha surgido para fazer frente à angustia interna que sentia, que parecia indizível, impossivel de traduzir por palavras ou de ser vivenciada. vomitando, deixava-lhe um sentimento de esvaziamento de tudo isto.
"Claro que a maioria das coisas está para lá do meu controlo. Perder pessoas que amo, entrar numa série de que tenho vergonha, ver os trabalhos de realização serem-me tirados... mas isto? Isto posso controlar."
"A vergonha que sinto [da série não ser da Netflix] é intolerável. Preciso do meu mecanismo de defesa. Preciso da sensação de esvaziamento que obtenho depois de uma boa purga."
não nos podemos esquecer que, para um criança, os pais são toda a realidade que conhece - o seu exemplo e modelo de relação. ora, este foi um caso infeliz, onde se juntaram vários fatores que proporcionaram uma maior isolamento da Jennette, o que prolongou ainda mais toda esta angústia que observamos. uma bola de neve de sentimentos, emoções impossíveis de serem vividas ou traduzidas por palavras, que se tornaram sintomas e elos de ligação com a mãe da qual não se podia separar, e que não desapareceram com a sua morte, antes, agravaram-se e deixaram-lhe a questão: afinal quem é a Jennette sem a sombra da mãe?