
os vazios parentais
pergunto-me se não estamos, cada vez mais, a descredibilizar o papel dos educadores na nossa vida. parece que banalizámos aprender sobre o mundo e a sua história, sobre ciências e contabilidade à distância de um click. do mesmo modo, parece que também se tornou um ritual familiar comum aprender a ser "a melhor versão" de pais possível através de meia dúzia de livros e de cursos de parentalidade... mas não só.

quando olhamos para estes recursos como o lugar óbvio e indicado onde vamos aprender sobre parentalidade, esquecemo-nos dos nossos melhores, e primeiros, professores: os nossos pais. como escrevi há uns tempos num outro artigo, somos pais com os pais que tivemos e com os filhos que somos:
à semelhança de uma criança, também nós vamos apalpando terreno no mundo da parentalidade imitando aquilo que vivemos, como se de um barómetro se tratasse. quantas vezes não damos por nós a pensar "a minha mãe dizia-me o mesmo"? ou, pior, quantas vezes não nos dizem "estás a ficar igual ao teu pai"? (...) tudo isto é normal, os nossos pais são as nossas referências sobre o que fazer e o que não fazer.
talvez os pais de hoje tenham (e bem!) refletido tanto sobre a sua própria experiência de parentalidade - o que tornou possível questionar o que viveram e, com isto, as escolhas dos seus pais - que, além disso de ter permitido um grande crescimento interno, poderá ter criado uma grande cisão com o seu passado e as suas referências.
será que, questionámos tanto a parentalidade que vivemos que acabámos a rejeitar parentalidade dos nosso próprios pais? e quando, nos dias de hoje, rejeitamos de forma tão radical as nossas principais referências internas, o que sobra? quero dizer: será que desidealizámos de tal forma os nossos pais, que procuramos hoje nas redes sociais, nas séries e nos livros novas idealizações de parentalidade? será que, perante radical rejeição, não descredibilizámos os nossos antepassados ao ponto de que ficarmos sem aldeia (mais ou menos orgânica) a quem pedir orientação e, por isso, procuramo-la aqui?
penso na série infantil Bluey e nos adultos que adoram assistir. será que, estando em tamanho esforço para fazer diferente do que tiveram, que os pais de hoje recorrem a estes desenhos animados - que parecem feitos para acalmar o seu coração - como guias? será que idealizam o pai da Bluey como o pai perfeito, pela ausência de candidatos suficientemente bons para ocupar esse lugar?
como não hão de as famílias se sentir sozinhas quando parece que se despovoaram internamente, preenchendo com artifícios caricaturados os vazios que deixaram? como não haverão de sentir-se perdidas? como não haveremos de ter a geração de pais mais perdidos de sempre, mesmo sendo os mais informados?



