este é um livro que me deixou de coração nas mãos. foi uma leitura que demorou muito, mas realmente muito, tempo a fluir. parecia quase sem nexo, uma vida familiar tão desconexa e aleatória que me perturbava a leitura. contudo, nas ultimas 100 páginas, estava verdadeiramente imersa na tristeza e na solidão que as personagens deste livro carregam dentro delas. as lágrimas estiveram no canto dos meus olhos durante todo este final, não porque fosse um plot twist intenso, mas porque ficava cada vez mais óbvia esta dimensão de profundo desamparo.
é muito curioso o titulo e a capacidade que a Rose, a personagem principal, nos traz. Rose consegue, pelo sabor dos alimentos, perceber não só as suas caraterísticas, o local de produção, mas também as emoções de quem os confeccionou. claro que não resisto a fazer uma análise mais psicológica e, uma vez mais, metafórica destas capacidades.
esta capacidade de Rose talvez seja uma excelente metáfora para os herdeiros de pais deprimidos. sem querer generalizar, existe uma certa tendência nestas crianças em procurar ler o mais corretamente possivel os estados emocionais dos pais de forma a que consigam adaptar-se e moldar-se a eles. tal como Rose, estas crianças acabam então por tornar-se, por necessidade, hipercompetentes a perceber aquilo que os outros estão a sentir, sendo rotuladas como muito empáticas e amigas quando, na verdade, não conseguem sair desse lugar "moldável" na relação com o outro.
" You would come hug me just exactly when I needed a hug. Like magic. Mom said. (...) It wasn't magic, I said. You always looked like you needed a hug"
é interessante ainda que esta metáfora surja pela comida - um dos primeiros veículos de conexão. alimentar é dar afeto. é mimar. é cuidar. e de que forma terá sido alimentada
esta criança? pela sua dificuldade em comer a comida da mãe, e preferência por snacks de máquinas, podemos imaginar a carga emocional que sente nos seus pratos, na relação com esta figura primária tão importante para o seu desenvolvimento.
Rose é somente a filha mais nova deste casal. temos um filho mais velho que vamos conhecendo melhor ao longo do tempo e que nos transmite ainda mais a depressão que esta mãe viveu. numa vida que lhe parecia totalmente desligada de si própria, procurava nos filhos preencher o vazio que sentia, mais concretamente, no filho mais velho, aquele que parecia ser quem dava mais alento à sua vida. tendo em conta esta necessidade interna da presença deste filho, a relação meio que fusional que existia entre eles, conseguimos perceber como o marcou e, por isso, compreender melhor o seu destino.
"I'd realized, and by taking the splinters out of her hand, it felt to me now like he'd been almost pulling himself out of her. (...) he was also removing all traces of any tiny leftover parts, and suddenly a ritual which I'd always found "
sem querendo dar (mais!) spoilers, é muito interessante pensar ainda como os nossos pontos cegos, enquanto pais, tantas vezes no bloqueiam de conectar com os nossos filhos. há algo neste pai, que mais à frente na história percebemos, que o faz estar tão desligado dos outros e, mais concretamente, dos seus filhos. por vezes, com a vontade de afastarmos da mente aquilo que nos perturba, nem conseguimos ver como também os nossos filhos estão a sofrer conosco.
resumidamente, este é um livro duro, inteligente na sua escrita, ainda que meio que confuso e aleatório, sendo que só conseguimos ligar as várias pontas soltas relativamente perto do fim. é um livro com uma carga simbólica tal que recomendo a todos ler - especialmente a psicólogos. o livro ainda não está traduzido para português e a versão que li foi a ebook (daí não constar na fotografia).