serão os telemóveis os verdadeiros demónios?
este é um texto que escrevi para o blog Palavras Sentidas da Filipa Maló Franco. este que é o segundo texto desta série de reflexões sobre o tema...

quando vemos afinal as nossas crianças a pegar no telemóvel? no carro enquanto vão para a escola? em casa enquanto comem? enquanto esperam pela hora do banho? No café enquanto os pais conversam? no sofá enquanto os pais estão a ver televisão? nos recreios enquanto os amigos brincam a uma brincadeira que eles não querem? enquanto esperam o João pestana chegar?
talvez seja o enquanto que faz as nossas crianças pegar nos telemóveis. talvez seja o enquanto que as deixa a tremer por dentro. talvez seja o enquanto que as deixa inquietas. talvez seja o enquanto que as deixa angustiadas. o problema com os enquantos da vida talvez seja o vazio para que as remete e a forma com esse vazio é preenchido. quando na nossa mente surge conteúdo desligado, sem nexo ou sentido, por vezes angustiante e assustador, não queremos ficar ali.
desengana-se o leitor se acha que falo de crianças psicopatologicamente doentes, não, falo de todas as crianças. não nos podemos esquecer que crescer é assustador. exige um processo de constante elaboração do que se passa no mundo - algo que nem sempre vem com as legendas de que precisam para o fazer. a sua fantasia está ao rubro e preenche todos os espaços em branco com cenários que podem ser muito assustadores.
retomando o pensamento, não conseguindo dar sentido a tudo isso, as nossas crianças vão querer fugir de ser invadidas por tudo o que vai dentro de si e vão para fora, de preferência para o que as levar para mais longe de si possível. os telemóveis fazem este papel na perfeição!
os telemóveis, vídeos curtos e estimulantes, os jogos desafiantes, permitem uma fuga rápida e eficaz. as características destas aplicações permitem, de uma forma muito clara, contornar-se a si próprias e a toda e qualquer fonte de frustração e inundar o seu interior com gratificação. podemos pensar sobre a constante necessidade de melhorar a tecnologia e de criar escapes à frustração e ao aborrecimento humanos, mas isso seria conversa para outro texto.
dito isto, tenho as minhas dúvidas que o problema sejam os telemóveis altamente tecnológico e satisfatórios que inventamos. a questão está no seu uso e naquilo que estão a permitir camuflar e nas repercussões de tapar o sol com a peneira. deixo o desafio: quando tendem as vossas crianças a pedir os aparelhos? mais, quando tendem os adultos a oferecer-lhes?
lê o texto anterior aqui:


