não somos pais do zero

26-03-2023

diz-se que ninguém nos ensina a ser pais, mas creio que isso não é verdade. não me refiro aos milhentos livros sobre parentalidade que podem encontrar nas livrarias (a propósito, a partir do final deste mês, poderão encontrar lá também um escrito por mim!). refiro-me aos nossos melhores professores: os nossos pais.

não entramos no mundo da parentalidade no dia em que somos pais. aliás, diria que fazemos parte dele desde o momento em que nascemos. desde que somos filhos que aprendemos o que é isto de ser pai. não acredito que nenhum de nós comece do zero quando um filho nasce - mesmo as pessoas órfãs têm, dentro de si, a fantasia dos pais que gostariam de ter tido. todos partimos da nossa experiência de filhos para viver a experiência de sermos pais.

à semelhança de uma criança, também nós vamos apalpando terreno no mundo da parentalidade imitando aquilo que vivemos, como se de um barómetro se tratasse. quantas vezes não damos por nós a pensar "a minha mãe dizia-me o mesmo"? ou, pior, quantas vezes não nos dizem "estás a ficar igual ao teu pai"? e, normalmente, não é um elogio… talvez mais do que aquelas que queremos admitir! tudo isto é normal, os nossos pais são as nossas referências sobre o que fazer e o que não fazer.

até aqui tudo bem. o perigo surge quando vivemos a nossa experiência de parentalidade em função da criança que fomos e não da criança que temos nos nossos braços. o perigo surge quando agimos segundo a nossa criança interior ferida e não a criança que hoje nos olha nos olhos. o perigo surge quando, inconscientemente, nos deixamos levar pelo nosso passado, pelo futuro que queremos evitar, e não pelo presente que precisamos de viver. o perigo surge quando tentamos reescrever a nossa história, ao invés de escrever um novo livro.

é tanto mais comum quanto a facilidade com que mandamos para debaixo do tapete as nossas pérolas negras de infância. quanto menos nos dedicámos a pensar sobre o que vivemos porque achámos que recordar seria quase como reviver e eram tantas coisas que queríamos manter bem longe de nós. mas longe da nossa consciência não significa longe de nós nem das nossas ações – antes pelo contrário.

esquecemo-nos como tudo aquilo que tentamos ignorar se acumula e forma uma bola debaixo do nosso tapete na qual, eventualmente, acabaremos por tropeçar. esquecemo-nos como as nossas feridas internas nos deixam mais sensíveis e reativos às nossas crianças. como ficamos enfurecidos porque o nosso bebé parece rejeitar-nos quando não mama, tal como nos sentimos rejeitados pelas pessoas mais importantes para nós. como ficamos desiludidos quando a nossa criança parece chorar por tudo e por nada e, nós, nem tivemos oportunidade para chorar quando nos aleijávamos. como ficamos magoados quando as nossas crianças se zangam connosco e nos querem bater, como se comprovassem que realmente não valemos nada enquanto pais tal como não valíamos nada enquanto filhos.

o perigo surge então quando olhamos nos olhos das nossas crianças e vemo-nos lá refletidos ao ponto de nos confundirmos com elas. o olhar de um Pai deve refletir a sua criança e não a sua criança interior. sabemos que somos feitos de histórias, claro. sabemos que é com elas que vivemos cada segundo das nossas vidas, mas não podemos ficar enredados nas suas teias. não podemos deixar que se tornem mais do que a base a partir da qual nos construímos. temos de pegar naquilo que nos foi dado e, partir daí, construirmo-nos, construir algo novo e nosso.

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marcia arnaud | psicóloga clínica | 2025 | Todos os direitos reservados
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