infância é para os adultos

31-03-2026

há já algum tempo que ando a pensar na experiência de infância que estamos a criar para as nossas crianças e, há já algum tempo, que vou sentindo que os produtos infantis estão cada vez mais direcionados para as necessidades dos adultos. com isto refiro-me aos brinquedos, mas também aos filmes, desenhos animados e livros infantis... 

fico, no entanto, a pensar: será possível o contrário sequer? se temos produtos pensados para crianças por adultos, não será quase automático (e também inconsciente!), terem na base os adultos que os fazem? se somos adultos com os pais que tivemos e os filhos que fomos, como refleti num artigo, não será também com toda essa história que criamos para as nossas crianças os produtos que elas hoje consomem? não serão estes produtos um espelho das necessidades de quem os faz? especialmente, quando essas necessidades gritam por serem atendidas? o que levanta a questão: 

quais, afinal, as necessidades dos adultos de hoje em dia? 

vejamos, estamos num século marcado por polaridades. estamos numa era em que os extremos têm cada vez mais expressão, em que a necessidade da dicotomia (e com ela, certezas) parece estar a crescer e a abalroar o bom senso... parece que estamos a regredir a um lugar onde se tornou intolerável e insatisfatório, até, estar no cinzento. tudo parece exigir uma posição imediata: ou se está de um lado ou de outro, sem hesitação. não havendo forma da ambivalência se manifestar ao nível do discurso, talvez encontre outros caminhos para se expressar...

parece-me muito significativo que esta ambiguidade, que se está a perder no mundo do adulto, pareça agora surgir no universo infantil. talvez seja a infância o território mais seguro para tudo ser dito e para que todos (crianças e adultos) fiquem diante do ambíguo sem a necessidade urgente de o reduzir ou eliminar. surgem-me dois exemplos em mente: as Guerreiras do K-Pop e os Labubu.

o sucesso Guerreiras do K-Pop deixa clara a coexistência de opostos e a essência do ser humano: podemos ser frágeis e corajosas e, ainda assim, ter "sangue de demónio" a correr dentro das nossas veias. o filme expõe então os lados sombra que existem dentro de todos e cada um de nós, feitos das emoções e pensamentos que não queremos assumir a ninguém. já os fofos bonecos Labubu, com os seus sorrisos estranhos e olhos misteriosos (também um sucesso em crianças e adultos), reforçam o conceito japonês Wabi-sabi, que celebra a beleza do imperfeito, do feio. ambas as produções parecem dar permissão à imperfeição. 

o seu sucesso diante os mais crescidos, sugere um movimento regressivo dos adultos. muitos dos pais de hoje são ainda filhos da ditadura - viveram uma grande rigidez, autoritarismo e disciplina como marca das relações e da parentalidade. talvez tenham sido crianças que viveram demasiado tempo no monocromático e, por isso, a sua criança interior procura hoje conteúdos mais coloridos, mais ambivalentes - para si e para entregar uma experiência diferente às suas crianças. contudo, tendo em conta o panorama social atual, podemos ver este movimento também como uma tentativa de se exporem à ambivalência de que necessitam, mas fora da realidade do adulto, num domínio mais estético e visual (como um brinquedo ou um filme) que oferece uma experiência imediata e sensorial, que não exige que seja pensada ou elaborada. 

a pergunta mantém-se: quem é que precisa verdadeiramente desta integração da ambivalência? estamos a produzir estes produtos para quem? porque, se ainda estamos a produzir conteúdos e produtos tendo as crianças como público alvo, estamos a esquecermo-nos da importância que a clivagem tem no desenvolvimento infantil. a criança precisa, talvez até bem depois do fim da segunda infância (7 anos, talvez) de organizar o mundo em categorias dicotómicas: o bom e o mau, o certo e o errado. nestas idades, a capacidade psíquica e cognitiva para abraçar a ambivalência é precária, pelo que precisamos dos vilões e dos heróis bem clarificados. 

fica  a sugestão: talvez devêssemos passar a ter uma distinção e categorias como "filmes infantis para adultos" ou "brinquedos para adultos"... talvez assim não nos esquecêssemos das necessidades das nossas crianças também.


referências:

podcast: como assim? Da loucura ao esquecimento


Share
marcia arnaud | psicóloga clínica | 2025 | Todos os direitos reservados
Desenvolvido por Webnode
Crie o seu site grátis!